O objetivo desse artigo foi identificar o perfil do novo profissional de Comunicação que atua na área corporativa, traçando um paralelo entre o que o mercado busca e o que as universidades oferecem, por meio de pesquisa em material bibliográfico; dados de pesquisas realizadas por universidades e/ou associações ligadas à Comunicação Corporativa; avaliação das grades curriculares de quatro faculdades de Comunicação de São Paulo; e entrevistas com profissionais e docentes de Comunicação, que responderam: quem é esse novo profissional de Comunicação, qual o seu papel dentro da instituição na qual atua e como as universidades preparam esse novo profissional de Comunicação
preparam esse novo profissional de Comunicação.
O que se pôde observar foi que as universidades pesquisadas para esse material começam um processo de transformação em suas grades curriculares, para melhor atender às exigências desse novo mercado. No entanto, nota-se que esse processo ainda precisa ser melhorado e um diálogo aberto entre universidade e mercado pode ser um passo importante para a formação do profissional de Comunicação.
Palavras-chave: gestor, ensino, Comunicação e mercado.
Introdução
Devido a importantes mudanças na esfera social, econômica, política, cultural e ao
amadurecimento dos diversos púbicos-alvos com os quais a área de Comunicação Corporativa
se relaciona no seu dia-a-dia, o profissional de Comunicação vem assumindo papel estratégico
nos negócios da instituição na qual atua. Essas transformações são reflexos da nova postura
que as empresas adotaram no novo cenário socioeconômico, que exige transparência em suas
ações e cobra respostas rápidas e precisas.
O novo profissional de Comunicação tornou-se, assim, em um gestor de informação,
que deve ter rico conhecimento em Administração, Sociologia, Antropologia, Tecnologia,
Economia, entre outras ciências, além de dominar as ferramentas de Comunicação.
O objetivo dessa pesquisa foi conhecer esse novo profissional de Comunicação,
traçando um paralelo entre o que mercado busca e o que as universidades oferecem. Procurou,
então, responder quem é esse novo profissional de Comunicação, qual o seu papel dentro da
instituição na qual trabalha e como esse profissional é preparado nas universidades para se
tornar competitivo no mercado.
A metodologia de abordagem adotada para melhor responder as questões acima
descritas foi por meio de pesquisa bibliográfica e documental; avaliação das grades
curriculares divulgadas nos sites dos cursos de Comunicação de quatro universidades de São
Paulo (Escola de Comunicações e Arte da USP, Faculdade Cásper Líbero, Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo e Universidade Metodista de São Paulo), que tiveram o
maior número de candidatos inscritos nos vestibulares de 2006 e 2007 para os cursos de
Comunicação; e entrevistas com profissionais e docentes de Comunicação.
Cenário
A competição em mercados cada vez mais complexos exigiu mudanças radicais na
Comunicação das organizações, não havendo mais espaço para a mentalidade tradicional,
quando a informação era controlada e destinada para poucos. Essas transformações
influenciaram diretamente nos objetivos, na missão, nos valores e nos processos operacionais
e comerciais das instituições. O professor de Comunicação da Universidade Católica de
Brasília, Curvello (2001, p. 36), afirma:
(...) A lei da selva mercadológica é taxativa: ou muda, ou morre. Não há
meio termo. (...) O advento desse novo modelo organizacional traz consigo
uma radical mudança no processo de troca de informações nas organizações
e afeta, também, todo um sistema de Comunicação baseado no paradigma da
O novo formato de comunicação, que considera diferentes públicos e, conseqüentemente, novas regras para comunicar as informações das instituições, começa a ser desenhado a partir da mudança no cenário político, econômico e social das grandes organizações, que teve início após a denúncia de inúmeros escândalos financeiros. O primeiro deles ocorreu em 2001, envolvendo a empresa norte-americana de energia Enron. Na ocasião, seus administradores forjaram os resultados financeiros, ocultando os prejuízos dos acionistas e investidores. No final do mesmo ano, a empresa pediu falência. Nos anos seguintes,transmissão controlada de informações.
tornaram-se públicos outros escândalos provocados por empresas americanas e européias,
entre elas: Parmalat, Xerox, Jealth South, Adelphia, Tyco, WorldCom. Em relação aos efeitos
causados pelos escândalos financeiros, Nilton Pavin (2005, p. 11) esclarece:
Somente nesses três últimos anos, milhares de investidores,
principalmente aposentados que investem no mercado de ações por meio de fundos de pensão,
viram suas poupanças desaparecerem de US$ 1 milhão para singelos US$ 8 mil.
A avalanche de episódios de má gestão empresarial colocou em xeque
a vulnerabilidade administrativa das empresas de capital aberto.
Diante desses fatos e para atender as exigências do mercado, as organizações, então,
vêm adotando novas medidas, com destaque para a Governança Corporativa, que defende a
transparência de gestão administrativa, influenciando diretamente no formato da informação
das práticas das organizações, forçando as empresas a repensar as estratégias de
Comunicação. Dessa forma, a Comunicação deixa de ser apenas um simples instrumento
gerencial para transmissão de ordens internas e informações do dia-a-dia e torna-se detentora
de um papel estratégico na aproximação e integração dos diferentes públicos com a empresa.
Paralelamente às mudanças políticas e econômicas, surgem novos canais de
Comunicação, que revolucionaram a forma e transmissão da informação. Destaque para a
Internet, que abriu um campo novo e ágil para a disseminação da informação. Conhecer seu
público, linguagem e efeitos no negócio são alicerces importantes para a gestão desse novo
canal. E, acima de tudo, é preciso saber avaliar a velocidade com que a informação inserida
nessa ferramenta chega aos diferentes públicos. Sobre o tema, Wilson da Costa Bueno (2006,
On-line) diz: A Internet pode contribuir para que empresas e entidades abram novos anais de Comunicação com os seus públicos de interesse. Quem souber utilizá-la bem, usufruirá, com certeza de uma vantagem competitiva. No mundo globalizado poderá ser uma questão de sobrevivência.
Esse novo cenário socioeconômico, a obrigatoriedade na transparência da informação
e o conhecimento de novas tecnologias têm provocado, nas últimas duas décadas, mudanças
na atuação do profissional de Comunicação que atua na área corporativa, que passou a se
relacionar, diariamente, com diferentes públicos-alvos com interesses de informação distintos.
A saber: público interno - formado por funcionários e colaboradores -, imprensa, comunidade,
Organizações Não Governamentais, fornecedores, clientes, formadores de opinião, Governo e
investidores. A respeito desse assunto, Sabbatini (2005, p.13) diz que:
(...) O novo ambiente competitivo, bastante influenciado pela onda de
liberalização econômica que vem atingindo a economia mundial desde os
anos 70 em geral, e desde os anos 90 no Brasil em particular, impôs às
empresas as necessidades de alterar suas estratégias de atuação.
Ao elaborar as estratégias de divulgação das informações para os diferentes públicos, o
novo profissional de Comunicação deve ter conhecimento em diversas ciências: Antropologia,
Economia, Tecnologia, Administração, Sociologia, Política, Direito, entre outras, além de
dominar as novas ferramentas de Comunicação que estão à disposição desde o fenômeno da
globalização.
Segundo Daniel Bruin, jornalista e gerente de Comunicação Externa da Nestlé, “o
mercado está gestando um novo e mais poderoso profissional de Comunicação empresarial,
com um papel estratégico dentro das empresas infinitamente superior ao de alguns anos
atrás”. (2005, p.18).
Nasce, assim, a necessidade de um profissional de Comunicação capaz de superar
novos desafios, principalmente no que se refere à formação e constante aprimoramento,
porque sua atuação, diante do novo quadro, foi ampliada e as estratégias por ele traçadas para
a divulgação de notícias e ações das organizações influenciam nos resultados dos negócios.
O que as empresas buscam
A atual missão da área de Comunicação Corporativa é informar com qualidade,
conteúdo e transparência e, para isso, as empresas vêm buscando um profissional de
Comunicação com um novo perfil, independentemente de sua formação acadêmica na área da
Comunicação Social (Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV,
cinema etc.). O jornalista Daniel Bruin (2007, On-line) diz: “O que mais importa, atualmente,
é reunir as competências necessárias para exercitar e planejar a imagem pública da companhia
com eficiência”.
A cada dia, empresas de diferentes segmentos passam a implantar novas formas de
gestão da informação, utilizando diferentes ferramentas e/ou canais de Comunicação para
conversar com os públicos-alvos distintos. O gestor de Comunicação é o responsável por
colocar em prática essa nova forma de comunicar, aliando a informação às novas regras de
mercado.
(...) Agora é diferente. Comunicação significa conselheiro, estrategista,
enfim, é um valor maior para o êxito das corporações. Se não há brilho,
experiência e ética na Comunicação, não há substância na competitividade e
o desempenho nos negócios, em conseqüência, torna-se um pálido decalque
do que poderia vir a ser. (VIANA, 2006, On-line).
que o mercado socioeconômico vem sofrendo ao longo dos últimos anos, por isso, muitas
empresas acreditam que preparo intelectual, boa redação, excelente capacidade analítica,
visão de negócio de longo prazo não são exclusivas da formação de Comunicação. Nilton
Pavin (2005, p.87) diz:
(...) Antes, esse profissional estava limitado ao trabalho de assessoria de
imprensa, à elaboração de house organs e à confecção de comunicados
internos. Hoje, atua na Comunicação interna – endomarketing – e
publicações; externa (relações com a imprensa, institucionais, culturais,
governamentais e sociais); e de RI. O resultado do trabalho desse gestor de
Comunicação está diretamente ligado à imagem da empresa e à precificação
de suas ações, no caso das companhias com capital aberto.
A importância desse departamento, em empresas que usam a Comunicação como
ferramenta estratégica, cresceu tanto nos últimos anos, que alguns organogramas apresentam a
área ligada diretamente à presidência. Dessa forma, os profissionais que atuam nesse setor em
uma organização, com esse formato de estrutura, estão inseridos no planejamento estratégico
e contribuindo diretamente no resultado do negócio. Surge, assim, a real necessidade de um
profissional de Comunicação capaz de gerar informações que atendam às necessidades dos
diferentes públicos com os quais as organizações conversam, para solidificar a imagem da
empresa e, assim, influenciar positivamente nos resultados do negócio.
A sinergia, a transparência e a pró-atividade instituem-se em atributos
básicos de uma política de Comunicação Empresarial e passam a regular as
ações desenvolvidas junto ao mercado. A fragmentação das atividades de
Comunicação (relações públicas, assessoria de imprensa, identidade visual,
edição de publicações etc) é, de pronto, substituída por uma nova
perspectiva, fundada no planejamento e na integração. (BUENO, 2006, Online).
O novo profissional, diante desse cenário, não deve apenas se fixar nos conhecimentos
de seu curso de formação. Deve, por exemplo, aprimorar-se em todas as vertentes de
Comunicação. O jornalista tem que entender das técnicas de relações públicas, que, por sua
vez, também precisa ter conhecimento de publicidade e propaganda, e esse deve saber avaliar
a melhor linguagem em um texto jornalístico. Enfim, hoje o bom profissional de
Comunicação é o que apresenta em seu perfil total conhecimento em todas as áreas da sua
formação e em outras ciências. De acordo com Wilson da Costa Bueno (2003, p. XI):
Ele agora se transformou em um gestor de informações, com o domínio de
várias línguas e discursos, além de conteúdos que se situam em outras
esferas, como a administração, a sociologia, a antropologia e a tecnologia da
informação.
Para entender melhor o que as organizações buscam para as áreas de Comunicação, é
importante acompanhar pesquisas aplicadas por empresas que apostam no setor. Anualmente,o comitê de Comunicação Corporativa da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) aplica
pesquisa para avaliar a Comunicação das empresas que compõem a entidade. Sua pesquisa de
2006 focou no mapeamento da área de Comunicação Corporativa. Seus resultados foram
apresentados no VIII Fórum Internacional de Estratégias de Comunicação Corporativa,
realizado no final julho de 2006, em São Paulo, e divulgado, no mesmo ano, no site da
entidade. (2006, On-line).
Embora o número de empresas que responderam ao questionário aplicado pela ABA
para conhecer a área de Comunicação das empresas associadas (56) não tenha sido
significativo para alguns pesquisadores, os resultados nos fornecem um espelho importante
sobre a formação e o perfil dos profissionais de Comunicação que atendem algumas empresas
associadas à entidade. A formação básica do principal responsável pela área de Comunicação
dessas empresas é: 50% cursaram jornalismo, 6% relações públicas, 6% marketing, 4%
propaganda, 2% administração e 32% outra formação acadêmica que não Comunicação. O
jornalista Daniel Bruin (2006, On-line), ao comentar a pesquisa, diz:
Seria interessante que a entidade divulgasse também do que se constituem os
‘outros’(...) Pois entre os ‘outros’ certamente há advogados, engenheiros,
arquitetos e outras profissões que raramente são ligadas à Comunicação, mas
que começam a migrar com seus conhecimentos diferenciados para um
mercado carente de influências externas de qualidade.
Os critérios que as organizações usam para definir o perfil mais adequado desse
profissional, que deve atender ao novo modelo de gestão de informação, avaliam não só o
título acadêmico, mas se a formação proporcionada por esse título traz em sua grade
conhecimentos para compor o perfil do profissional desejado. O jornalista e consultor de
empresas Francisco Viana (2006, On-line) diz:
(...) soou o momento do comunicador falar mais a linguagem do Excel, do
que do Word. Explicando melhor: posicionar-se como um conselheiro, um
estrategista, que contribui para os resultados, em termos de valores, para as
companhias.
conhecimentos nas áreas financeira, administrativa, logística, entre outras, para ter
entendimento sobre todos os setores que compõem a atividade da empresa na qual atua. A
respeito do novo papel da Comunicação para as empresas, Wilson da Costa Bueno afirma:
(2003, p.4):
A Comunicação é o espelho da cultura empresarial e reflete,
necessariamente, os valores das organizações. Se eles caminham para
valorizar o profissionalismo, a transparência, a responsabilidade social e a
participação, a Comunicação se orienta no mesmo sentido.
Muitos profissionais do setor e associações ligadas à Comunicação Corporativa têm
apresentado trabalhos que abordam o perfil do novo profissional de Comunicação. Os estudos
divulgados revelam que, a cada dia, esse profissional, quando bem preparado, assume cargos
importantes no organograma da empresa.
Segundo a pesquisa do Databerje (2005, On-line) instituto de pesquisa da Associação
Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), 47% dos profissionais entrevistados, em
117 empresas ouvidas, ocupam cargos de diretor, superintendente ou gerente; 14% são
coordenadores e 18% analistas.
Diante desse quadro, os profissionais de Comunicação na ativa têm que se renovar e
os que iniciam a carreira devem aprimorar o conhecimento adquirido nos bancos
universitários. É preciso entender de economia mundial, de tendências de negócios e conhecer
os desafios que devem superar em sua trajetória na empresa. A renovação no perfil do
profissional de Comunicação é algo a ser comemorado. Daniel Bruin (2005, p.20) afirma:
Todos estes fatores pintam um quadro bastante animador para o futuro
profissional de Comunicação corporativa. Mas é preciso encarar o desafio
com preparo e bom sendo, seguindo as melhores práticas e, no momento
certo, criando novos parâmetros de atuação.
Com um novo modelo de Comunicação Corporativa em evidência, os profissionais
que pretendem atuar ou continuar nesse mercado devem buscar novos conhecimentos. Com
isso, as faculdades de Comunicação começam, também, um processo de transformação.
Algumas já incorporam em suas grades curriculares disciplinas que atendem às necessidades
desse novo mercado, outras já oferecem cursos de especialização que cumprem esse papel.
(...) um modelo de gestão da Comunicação surge como uma resposta
racional e viável às lutas surdas entre os profissionais de Comunicação pela
hegemonia da atuação nas organizações, que acabava também se refletindo
na pesquisa e na reflexão acadêmica. Na visão dos autores, as imposições de
um mercado em mutação constante exigiriam uma atuação conjunta e eficaz
dos profissionais, de forma a oferecer às organizações instrumentos que
realmente pudessem atender à demanda social por informação.
(CURVELLO. 2002, On-line).
Dessa forma, novas ciências começam a ser agregadas na formação do profissional de
Comunicação, com o objetivo de aproximar a academia das necessidades reais do mercado.
O que as universidades oferecem
Antes de abordar propriamente o ensino de Comunicação Social, é preciso entender
que, devido à importância estratégica que a política de Comunicação adotada pelas
organizações exerce hoje nos negócios, a grade curricular das diferentes ciências também
deve se aprimorar. O consultor Francisco Vianna (2006, On-line), ao citar, por exemplo, a
Administração como parte do conhecimento do profissional de Comunicação, defende que:
A Comunicação é parte indissociável da administração. O problema é que
nas escolas de administração não se aborda o tema Comunicação nos
currículos e nas escolas de Comunicação pouco se fala de Economia. Os dois
universos precisam dialogar. E se integrar.
As grades curriculares das diferentes ciências, incluído a Comunicação Social, têm
sido aprimoradas, seguindo tendências e anseios da sociedade. Para José Marques de Melo
(2003, p. 105) “qualquer campo do conhecimento surge como conseqüência das demandas
coletivas. Trata-se da resultante de um processo destinado a compreender e a controlar os
fenômenos sociais emergente”.
As primeiras escolas de jornalismo norte-americanas, por exemplo, institucionalizaram
–se devido à perplexidade da comunidade diante da falta de ética e na prática do jornalismo
sensacionalista, que estava estampado nos jornais diários no começo do século passado. José
Marques de Melo (2003, p.107) explica que:
(...) No panorama europeu elas seriam produto da mudança de postura
exercida pela Igreja Católica, que supera a visão apocalíptica da imprensa,
passando a considerar seu potencial moralizador (Leão XIII e Pio XI). A
aceitação desse novo campo do saber pelas universidades conduz ao
aparecimento das primeiras instituições destinadas a formar comunicadores.
(2007, entrevista), as escolas de Comunicação não respondem uma questão básica e suas
variáveis, que contribuiria para a melhor formação do seu profissional:
É preciso definir melhor o que é a Comunicação. Essa reflexão nos leva a
olhar para o agente da Comunicação, que é o ser humano, e entendê-lo. As
escolas de Comunicação não trabalham o ser humano como o principal
agente da Comunicação e, conseqüentemente, o efeito da Comunicação no
dia-a-dia desse agente, que compõe cada segmento dos nossos diferentes
públicos-alvos, com necessidades de informação distintas.
Faz-se, então, necessário perguntar como as faculdades de Comunicação, de hoje,
estão adaptando a sua grade curricular para atender às necessidades do novo mercado, que
tem usado a Comunicação como ferramenta importante para garantir o sucesso do negócio.
Para a professora doutora em Ciências da Comunicacão Graça Caldas (2003, p. 17.):
Verifica-se, cada vez mais, um equilíbrio entre as disciplinas teóricas e
práticas, com um corpo docente oriundo da academia e do mercado,
trabalhando muitas vezes em conjunto. A tradicional dicotomia entre a teoria
e a prática está sendo vencida pelos esforços de professores e alunos que
diretamente enfrentam desafios de conciliar as dificuldades de infra-estrutura
e as referentes à má formação deficiente e sem uma compreensão clara do
papel da universidade.
Com base na procura dos estudantes de São Paulo interessados na área de
Comunicação Social nos últimos dois vestibulares (2006 e 2007), foram selecionadas quatro
instituições de ensino superior que oferecem cursos de Comunicação: Escola de
Comunicações e Artes da USP, Faculdade Cásper Líbero, Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo e Universidade Metodista de São Paulo.
A metodologia utilizada foi de pesquisas nos sites das universidades citadas e
entrevistas com docentes para entender a estrutura da formação da grade curricular de cada
escola. A avaliação comparou também as exigências do MEC (Ministério da Educação e
Cultura) para os cursos de Comunicação Social, que define, segundo a Resolução do
Conselho Nacional de Educação / Câmara de Educação Superior 16, de 13 de março de 2002,
que as Diretrizes Curriculares para a área de Comunicação Social e suas habilitações,
integrantes dos Pareceres CNE/CES 492/2001 e 1.363/2001, devem orientar a formulação do
projeto pedagógico do referido curso. Esse projeto deve contemplar (2002, On-line):
- O perfil comum e os perfis específicos por habilitação.
- As competências e habilidades gerais e específicas por habilitação a serem
- desenvolvidas, durante o período de formação.
- Os conteúdos básicos relacionados à parte comum e às diferentes
- habilitações e os conteúdos específicos escolhidos pela instituição para
- organizar seu currículo pleno.
- As características dos estágios.
- As atividades complementares e respectiva carga horária.
- A estrutura do curso.
- As formas de acompanhamento e avaliação da formação ministrada
Segundo esses padrões, as quatro universidades pesquisadas seguem o sugerido pela
instituição governamental. Sendo, além dos citados anteriormente, carga horária; disciplinas
essenciais para a formação desses profissionais, nas diferentes categorias; metodologia d
avaliação; além da inclusão de disciplinas extras que contribuem para a formação adequada
dos futuros profissionais de Comunicação.
A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), fundada em agosto de
1946, e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA), em atividade
desde junho de 1966, valorizam ciências como Filosofia, Sociologia, Antropologia, entre
outras. (2007, On-line).
Na ECA, os discentes têm a oportunidade de buscar conhecimento em ciências como
Economia e Administração nas demais escolas da universidade. Dessa forma, a própria
universidade já estimula seus alunos ao aprimoramento de sua especialidade. Já a PUC
oferece cursos extracurriculares para essa busca de novos conhecimentos em várias ciências.
Para Ângela Pintor (2007, entrevista):
Cabe ao próprio aspirante à área de Comunicação corporativa buscar
aprimorar os seus conhecimentos, além de entender o uso adequado das
diferentes ferramentas de Comunicação para se ‘conversar’ com os
diferentes públicos-alvos que crescem a cada dia.
Atuando desde 1947, a Faculdade Cásper Líbero é considerada uma das mais
tradicionais instituições de ensino na área de Comunicação do País. A sua grade curricular é
bem estruturada para os cursos de Comunicação que disponibiliza: Jornalismo, Relações
Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV e Turismo. A filosofia de ensino na
instituição é preparar “um profissional crítico, tecnicamente capacitado a atuar no mercado de
trabalho e com versatilidade para se adequar às mudanças que os avanços conceituais e
tecnológicos impõem à forma de lidar com a informação” (2007, On-line)
Ao avaliar a grade curricular da Universidade Metodista de São Paulo, que teve o seus
Instituto de Ensino Superior fundado em 1970, verifica-se que a instituição apresenta matérias
específicas de atuação no novo mercado de trabalho para os profissionais de Comunicação.
No curso de Jornalismo, por exemplo, no sétimo semestre, há a disciplina “Gestão Estratégica
da Comunicação”, que pretende apresentar a esses novos profissionais como administrar uma
empresa de Comunicação, apostando no empreendedorismo, além de abordar, também, a
gestão do negócio, quando responsável pela área de Comunicação de uma organização (2007,
On-line).
Disciplinas como assessoria de imprensa e comunicação corporativa também
compõem a grade das faculdades de Jornalismo e Relações Públicas da instituição. O
coordenador da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Metodista de
São Paulo, professor Rodolfo Martino, diz (2007, entrevista):
O perfil dos nossos alunos é muito particular. Eles iniciam no mercado de
trabalho antes mesmo de terminar o curso, por isso a necessidade de preparálos
para os diferentes segmentos da área de Comunicação, que oferecem
vagas de trabalho, como assessoria de imprensa e atuação em organizações.
Todas as universidades pesquisadas oferecem cursos de pós-graduação que
possibilitam a formação de profissionais com o perfil que o mercado necessita, apresentando
em suas grades disciplinas específicas sobre o novo ambiente de negócios e abrindo
discussões de qual a melhor forma para atender às necessidades de informação dos diferentes
públicos-alvos.
É notório que todas as universidades pesquisadas procuram se alinhar com o novo
mercado, mas é preciso questionar qual realmente é o papel da universidade na formação de
um profissional. Será que seguir fielmente o mercado? Ou formar profissionais capazes de
pensar e buscar o seu conhecimento?
A professora doutura em Ciência da Comunicação Cicília M. Krohling Peruzzo (2003,
p.120) diz:
A responsabilidade da instituição universitária e do educador é preparar para
o futuro, para uma sociedade mais humana, igualitária e livre. É contribuir
para o estudante estar com o mundo e não no mundo. É facilitar para que ele
possa participar, interferir e transformar a realidade, mas também usufruir as
benesses e riquezas construídas socialmente.
Há universidades que já têm em seu corpo docente profissionais com larga experiência
no mercado, que apresentam essa realidade aos discentes. Por outro lado, há empresas que
buscam profissionais da academia para reforçar o seu time de comunicação, levando para
dentro das organizações a importância da formação consistente e não apenas superficial.
Durante o 10º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, ocorrido em maio
de 2007, em São Paulo, o professor de Ética da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (ECA/USP), Clovis de Barros Filho, na palestra Responsabilidade
Moral do Profissional de Comunicação, afirmou que “a universidade tem a missão de
capacitar o profissional a pensar e prepará-lo para atuar em um mundo ‘virgem’. Somente
apresentar cases de sucesso não garante e não forma profissionais capazes de inovar”.
Evidencia-se, assim, que as universidades devem agregar às grades curriculares
disciplinas que atendam às necessidades do mercado para a formação do novo profissional de
Comunicação. No entanto, devem ter como principal objetivo formar pessoas com capacidade
de pensar e, assim, desenvolver novas soluções.
Considerações Finais
Ao iniciar as pesquisas para a elaboração desse artigo, acreditava que as universidades
não estavam preparando adequadamente os profissionais de Comunicação para atuarem em
um mercado competitivo, que exige conhecimento em várias ciências.
É certo que a formação do profissional de Comunicação que atua nas organizações é
peça importante para a definição do perfil que as empresas buscam. Isso porque as
organizações não estão, necessariamente, focadas em profissionais com formação em
Comunicação, mas sim em profissionais que reúnam as características e conhecimentos
necessários para atender às novas demandas.
Também é notório que, assim, o profissional com formação em Comunicação começa
a perder mercado para profissionais de outras áreas, que têm uma formação geral mais
desenvolvida, principalmente para atuar em cargos mais elevados.
As universidades pesquisadas começam a introduzir em sua grade curricular cursos
complementares para a formação de um profissional de Comunicação mais apto para atender
as necessidades do mercado. Independentemente de sua área de atuação futura, os novos
estudantes têm a oportunidade de conhecer outras ciências, além da Comunicação.
Em algumas universidades pesquisadas há em seu corpo docente profissionais do
mercado atuando como formadores em matérias específicas para a formação do futuro
profissional. Atitude mais do que válida, porque, nesses casos, a universidade mescla a
importância da teoria com a necessidade da orientação prática. Ou seja, como aplicar com
sucesso a teoria no mercado de trabalho.
No entanto, alguns profissionais do mercado acreditam que os currículos ainda não
estão totalmente atualizados com as novas regras do mercado da Comunicação Corporativa e
os estudantes que saem das universidades não têm o perfil desejado para as incorporações.
Também é percebido que alguns profissionais do mercado não conhecem a fundo as
instituições de ensino e tampouco os esforços que as universidades vêm desempenhando para
atender às demandas de mercado.
Outro ponto importante, citado por alguns docentes, diz-se respeito à postura do aluno
e seu real interesse em ampliar seus conhecimentos em diversas ciências. O diálogo aberto
entre mercado, universidade e alunos, para o aprimoramento dos cursos de Comunicação, é
defendido tanto por docentes, como por profissionais do mercado. Para que haja um total
alinhamento entre o que o mercado busca e o que as universidades oferecem é necessário
entrosamento entre as partes.
As universidades precisam conhecer o mercado e o mercado também precisa entender
os objetivos de formação das universidades. A melhor combinação para se formar um
profissional adequado para seguir o seu caminho no mercado de trabalho é conhecimento e
prática, um complementa o outro.
Ficou evidente que as universidades buscam se adaptar ao mercado de trabalho.
Entretanto, o mercado é muito mais ágil do que a reformulação de um currículo e é, por isso,
que as universidades não devem perder de vista o seu papel, exercido desde a
institucionalização do conhecimento: formar pensadores. Formar profissionais capazes de
analisar a necessidade de aprimorar seus conhecimentos e buscar novos caminhos.
A formação tem três vertentes: o que o mercado busca, o que as universidades
oferecem e a postura do profissional na busca desse conhecimento. Vertentes que devem
interagir para que esse aprimoramento do conhecimento seja uma prática constante na
formação mutante do perfil de todos os profissionais, independentemente da carreira a seguir.
Evidentemente que defendo sempre a reestruturação da grade curricular alinhada ao
que o mercado necessita, mas defendo com mais rigor que as universidades continuem com o
seu propósito de formar pessoas com capacidade de pensar e inovar sempre.
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